Rotaroots – Uma carta para meu eu de 10 anos atrás

rotaroots carta
"

Posso ser sincero com vocês? Vou aproveitar dois posts para fazer uma coisa só. Quer dizer, duas idéias, para um post só. Além da Blogagem Coletiva do Rotaroots, também vou aproveitar para deixar minha homenagem para o Dia Internacional da Mulher. Embora saiba que todo dia é dia de respeitar e ser educado com elas (e não só com elas), gosto de imaginar que um Dia para elas é por questão de respeito por suas conquistas, não por uma questão mercadológica (embora tenha certeza do contrário).

Quando esta idéia surgiu no Rotaroots eu fiquei muito pensativo e muito animado. Adorei a idéia e tive vários pensamentos a respeito, mas ainda não tinha conseguido organizar o pensamento para começar a escrever. E ainda não consegui. Não para mim, mas pra minha mãe.

A Blogagem Coletiva é sobre escrever uma carta para seu “eu 10 anos atrás”. Se eu tomasse a liberdade para escrever uma carta para alguém, 10 anos atrás, mas que não fosse eu. Ao invés disso, enviasse esta carta para minha mãe, a primeira mulher no mundo a me inspirar e me mostrar que a maneira certa de respeitar alguém, não é lhe dando os parabéns em seu dia, mas em todos os dias do ano. Respeito vai além de uma flor e uma poesia bem escrita.

Então, mãe, essa carta é para você…10 anos atrás. Ou um pouquinho mais…

Bom dia, tudo bem? Meu nome é Vinícius e com certeza você sabe disso. Na verdade, é Marcus Vinícius, e você sabe bem de onde veio esse nome. Eu já tinha uma certa idade quando você resolveu me registrar, vai entender o porque, mas fato é que você acabou me deixando escolher meu próprio nome. Aí, ao invés de “Vinícios”, você deixou eu incluir o “Marcus com U”, com a condição de que, sendo assim, o Vinícius também tivesse um U. E, por incrível que pareça, você realmente deixou eu escolher e hoje esse é meu nome. Você deve estar orgulhosa. Se não está, deveria.

Mãe, essa carta é para te dizer que sua vida pela frente não será fácil. Nunca foi, não é mesmo?

Lembro muito bem de você contando para nós, aos risos e caras espantadas, como você ficava colada na porta do vizinho para ouvir rádio, a única diversão que tinha nas redondezas de sua casa. E como ele era um belo de um filho da mãe que abaixava o som para que você não ouvisse, afinal, o rádio era dele, ele não podia dividir com ninguém. Egoísta, né?

Falando em egoísmo, essa é uma palavra que você me ensinou bem como não ser. Me ensinou  a compartilhar, quando pegou 3 filhos do meu pai para criar e tivemos que dividir não só os brinquedos, mas como as roupas, a atenção e o carinho. Me ensinou a desconfiar das pessoas, não me entregando totalmente com alguns dias de “amizade”, coisa que você levou durante todo o tempo, nesses 10 anos. Poucas vezes vi você dizer que tinha um amigo de verdade. Acho que, pra ser sincero, só sei de duas amigas sua, declaradas, assim. De resto conheço poucos. Esse é um dom que herdei de você com força. Hoje só tenho 4 pessoas que eu posso chamar de amigos de verdade. E fico feliz em dizer que duas dessas pessoas, estão casadas com as outras duas. Incrível isso, né?

Não se preocupe também porque sua vida vai melhorar. Lembra quando você contava que comia todas as folhas do pé de carambola? Quer dizer, você subia para comer as carambolas, mas elas acabavam. Aí você comia as verdes e depois comia as folhas. Imagino que tenha sido duro pra você, mas posso te garantir que no seu futuro você vai ter uma mesa farta. Tudo que você quiser vai ter, desde marrom glacê, seu doce preferido, até jiló com angu, o que acredito ser sua comida preferida. Você nunca foi de muito luxo, mesmo. Me orgulho bastante disso. Ninguém precisa gostar de carne pra ser feliz.

Você vai ter altos e baixos, mas por tudo que você passar, eu e meus irmãos estaremos com você, pelo menos Theo, Márcia e eu. Não culpe os outros irmãos. A vida deles não foi tão fácil como a minha e não podemos culpá-los por tudo que passaram. Tenha certeza que, no fundo, no fundo, eles sabem que só são o que são porque tiveram um lugar pra dormir. Duvido muito que alguém conseguisse crescer na vida dormindo embaixo da ponte e roubando coisas na Central do Brasil. Mas vamos mudar de assunto, essa carta é para falar como está seu futuro, não como foi teu passado.

Seu futuro está lindo. Você passou por um câncer de mama e sobreviveu com louvor. Ficou carequinha uma época e ganhou um apelido carinhoso de Pinduca. Lembra que você sempre falava desse personagem pra mim? Eu nunca soube quem era, mas sabia que você gostava muito. Quando te vi sem cabelo nenhum, a associação foi quase instantânea.

Meu pai comprou um carro lindo, da cor dos seus sonhos. Na verdade, ele só comprou essa cor porque você quis. Vocês compraram praticamente juntos e o carro é tão seu quanto dele. Outro dia mesmo vi ele comentando como ficava feliz em ouvir você falar “meu carro”. Ele sabe, também, que se conseguiu se tornar alguém e comprar um carro, foi porque teve seu apoio durante os momentos difíceis. Afinal, quem passou fome e teve que alimentar quase 10 bocas e não abandonou o barco merece algum tipo de reconhecimento, né?

Sabe o que mais, mãe? Eu só tenho a agradecer a você. Durante muitos momentos eu estive com dificuldade, tanto financeira como emocional, e em todas elas você esteve do meu lado, me dando força, me dando apoio, me dando condições de continuar seguindo em frente. Tive que voltar a morar com vocês e engolir meu orgulho, porque todas as tentativas que tive de ser feliz deram erradas. Uma pena, né? Mas hoje nós estamos morando praticamente juntos de novo, mas por opção. Alugamos um apartamento lindo e você vem todos os fins de semana ficar aqui. Tem uma piscina enorme aqui, mãe, quando você ver vai adorar. Lembra daquela piscina na casa da Arlete, sua amiga? É uma banheira perto das piscinas que temos em nosso quintal. Difícil de acreditar, né? Eu quando olho pela janela não acredito, imagina você quando vir.

Ê vidão...

Ê vidão…

Ah, quase que eu esqueço de comentar. Você casou. É, mãe, com tudo que uma noiva tem direito. Vestido, um príncipe te levando até o altar (e eu tive que fazer esse papel. Espero que tenha ficado a contento), um carrão te levando até a Igreja (e isso foi cortesia do Cleber, meu irmão), um maridão lindo (era o que tinha, mãe) e todo mundo reunido dentro da Igreja. Depois de tanto tempo, de desencontros e de problemas, ver todos os irmãos reunidos, como uma família, não teve preço. Até hoje quando me lembro da foto eu fico feliz com a sensação. Ver todo mundo ali, comemorando o seu casamento foi algo incrível. Difícil de explicar assim por carta. Quer saber, melhor mostrar uma foto. Olha aí.

Você, Ademar, Cleber e Matheus na frente dele, Jorginho, Márcia, Theo, eu e meu pai

Você, Ademar, Cleber e Matheus na frente dele, Jorginho, Márcia, Theo, eu e meu pai

Você voltou a trabalhar com floricultura. Pegamos a loja de volta, reformamos ela e deixamos ela lindona pra você colocar as flores dentro. Você acabou se empolgando e botou um pouco mais de coisas. Sex Shop, telegrama, armas, crianças inocentes. Tudo que parecia dar lucro, você incluiu em sua lista de produtos a serem vendidos na loja, sem nem pensar duas vezes. Até incenso você vende, mãe. Agora, imagina. Você que não sente cheiro nenhum, tá vendendo incenso para um monte de gente. Já tentei observar pra ver como você faz pra vender, mas acho que é mais pelo olfato do cliente do que pelo seu.

E o tratamento com o cliente, mãe. Está impecável. Parece um capitão do BOPE vendendo flores. Responde, trata mal, mas todo mundo tá sempre voltando lá pra comprar. Os produtos devem ser muito bons, porque se fosse depender das suas habilidades atuais de venda, você estaria ferrada. Aproveita bastante a época em que você está e use bastante sua habilidade, porque 10 anos depois eu posso garantir que ela já se esgotou um bocado.

Mas você não parece se importar. Acho que já passou dessa fase, sabe? De vender por necessidade. Você trabalha por necessidade, mas é uma necessidade sua de se manter viva, de se manter ativa, de sentir que ainda é capaz de fazer algo. E isso me deixa muito feliz. Ver que você, com a sua idade, não se importa em acordar cedo e ir trabalhar, todo santo dia, é uma lição de vida que vou levar pra sempre comigo.

O que posso te dizer é que 10 anos depois (ou um pouco mais) você aparenta estar muito feliz e que sua vida irá melhorar muito. Resista bastante por tudo que você vai passar e venha com coragem e garra. Tenho certeza que logo, logo a gente se encontra nesse presente maravilhoso e vamos poder sentar e conversar. Quem sabe até não te ofereça uma xícara de chá, como fazíamos antigamente, ou melhor, para você este é o presente. Pode vir, mãe. Vem com tudo que o seu presente está te esperando de braços abertos e tudo que você trabalhou para ter, você terá em dobro. Exceto filhos, porque esses você já teve muitos. Acho que tá bom, né?

Olha a gente aí, mãe

Olha a gente aí, mãe

8 Comments

  • Reply Gaby Wolks março 8, 2014 at 1:59 pm

    Linda a carta, Van, mas, tadinha, quanto spoiler! Hahaha

    • Reply vanguedes março 8, 2014 at 1:59 pm

      hahahahaha…nem tinha pensado nisso 😀

  • Reply Daiane Araújo março 8, 2014 at 2:31 pm

    Linda carta, emocionante… =)

    • Reply vanguedes março 8, 2014 at 2:31 pm

      😀

  • Reply Cecília Maria março 9, 2014 at 4:56 am

    Ai, mas que legal essa sua ideia de juntar os dois temas! Adorei, de verdade. Parabéns 🙂
    Beijo

    • Reply vanguedes março 9, 2014 at 5:10 am

      Obrigado pela visita e pelo comentário, Cecília. Também fico feliz que tenha gostado da idéia. Minha mãe é minha maior inspiração, sempre que posso coloco ela nos meus textos hehehehe

  • Reply Priskka março 17, 2014 at 11:38 am

    ohhh… amei linda carta… sua mãe ficaria orgulhosa em recebe-la… adoreiii!

  • Reply Se for pra falar de saudade... | Vamos de Van abril 10, 2015 at 2:18 pm

    […] “Sabe o que mais, mãe? Eu só tenho a agradecer a você. Durante muitos momentos eu estive com dificuldade, tanto financeira como emocional, e em todas elas você esteve do meu lado, me dando força, me dando apoio, me dando condições de continuar seguindo em frente.” […]

  • Deixe sua opinião