Me acordou, de novo!

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Todo dia é a mesma coisa. Todo dia eu acordo desesperado para não levantar atrasado e, na maioria das vezes, eu realmente estou.

Logo que acordo, já vejo minha mãe falando de algo. Normalmente reclamando. Ela poderia reclamar menos, né?

Outro dia foi do café. Ontem foi de algum vizinho barulhento e hoje de manhã foi do pão doce maravilhoso da padaria que não estava, como sempre está, maravilhoso.

Meu pai mesmo disse outro dia: Se ela não estivesse falando tanto, eu não teria acordado. E não é que é verdade? Eu nem lembro se acordei por causa dela, mas sempre que eu acordo, ela está falando de algo. Seria coincidência?

Sábado é o dia de ficar com ela. Largo todas as coisas que estou fazendo ou que quero fazer e vou pra floricultura dela. O lugar não é nem muito bonito, eu vou mais pela presença dela. Passar a tarde com ela. Algumas vezes almoçar com ela, quando meu pai decide não fazer pé de galinha ensopado, por exemplo. É, meu pai. Aos sábados, como é o dia que a floricultura vende mais, meu pai que fica responsável pelo almoço. E aos domingos, quando é o dia da minha mãe descansar e, coincidentemente, o dele também.

Durante a semana, é a janta. Nem sempre meu pai come o que tem. Às vezes ele quer algo diferente, mas para que minha mãe não se incomode, ele mesmo vai lá e prepara. Moderno? Mais justo do que outra coisa.

Quando chego em casa à noite e ela está lá é complicado. Ela quer ver TV e eu quero jogar, eu quero usar o notebook e ela quer ver TV. No fim das contas eu sempre fico olhando de rabo de olho para o que está passando na TV e vez ou outra eu esboço um sorriso para ela.

Tem uma outra mágica também. Meu irmão que costuma comentar sobre ela. Se minha mãe estiver quieta durante 12 horas, nós temos a solução perfeita para ela voltar a falar: Ponha um fone de ouvido.

Nem sempre é com a gente, algumas vezes é só comentando algo sozinha, daí você acha que é com você. Algumas vezes é com a gente, mas tem hora mais oportuna do que quando você põe um fone de ouvido?

Ela também costuma passar por mim, quando estou sentado na sala, e esfregar o braço em mim, quando está com as mãos ocupadas. Às vezes eu acho que é só pra coçar, mas na maioria das vezes ela quer mesmo é mostrar carinho pra gente. E algumas vezes a mão dela está geladíssima, porque ela está lavando louça ou algo do tipo. É incômodo, né? Desconfortável, eu diria.

Mas não chega aos pés do sentimento de não tê-la por perto. De não ter ninguém para falar comigo quando eu coloco o fone. De não ter ninguém esfregando a mão gelada na minha nuca quando estou vendo tv, ou de acordar e ouvir a voz dela ou ouvir ela reclamando de alguma coisa. No dia que essa voz se calar, não só uma parte de mim morrerá, mas a metade da minha vida perderá a graça e a outra metade sentirá saudade dela.

Olhando por esse lado ela pode reclamar de quem ou do que ela quiser. Eu passo o dia inteiro vendo reclamações no Facebook e no Twitter e olha que não conheço metade das pessoas que estão ali. Você acha mesmo que ouvir reclamação da pessoa mais importante do mundo pra mim é incômodo?

Incômodo é a gente se preocupar tanto com pormenores da vida enquanto vai vendo a vida de quem amamos indo embora por entre os dedos. A hora de demonstrar carinho, amor e respeito é agora. Uma homenagem póstuma não tem valor se você nunca quis homenagear em vida.

Faça sua homenagem o quanto antes.

2 Comments

  • Reply mulhervitrolaVitrola abril 1, 2014 at 1:37 pm

    Queria poder mandar este post para alguém. Mas sei que a pessoa talvez nem leia, ou se ler, vai ignorar. Infelizmente.

    De qualquer forma, eu aprendi a conviver melhor com os meus pais quando saí da casa deles. Eu tive que me virar e só então, com o tempo, sentir carinho nas lições que minha mãe havia me ensinado. Hoje em dia nossa relação é mil vezes melhor. Eu não consigo nem pensar o dia que minha mãe se for (e fico brava pq ela não se cuida muito bem…)

    Um beijo,
    Re

  • Reply Se for pra falar de saudade... | Vamos de Van abril 10, 2015 at 2:01 pm

    […] “Mas não chega aos pés do sentimento de não tê-la por perto. De não ter ninguém para falar comigo quando eu coloco o fone. De não ter ninguém esfregando a mão gelada na minha nuca quando estou vendo tv, ou de acordar e ouvir a voz dela ou ouvir ela reclamando de alguma coisa. No dia que essa voz se calar, não só uma parte de mim morrerá, mas a metade da minha vida perderá a graça e a outra metade sentirá saudade dela.” […]

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