Crítica: Medianeras

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Intrigado com as insistentes sugestões de filmes Ucrânianos e Israelenses que meu irmão sempre me indicava, resolvi abrir mão do meu preconceito e assistir a um Drama Argentino para quebrar o clima frio de uma sexta feira tediosa.

Para que entendam, eu tenho sérios problemas em assistir filmes de língua estrangeira, que não inglês. Qualquer outro idioma me incomoda profundamente, até mesmo o Inglês Britânico soa irritante aos meus ouvidos, enquanto para muitos é extremamente sexy. Pode até ser babaquice, mas existem pouquíssimos filmes que consigo assistir sem que a língua nativa me incomode.

Para deixar de ser um babaca e começar a assistir filmes que não envolvam o Will Smith pagando de herói e morrendo no final, comecei a ver Medianeras, no Netflix, o serviço de vídeo mais maravilhoso do mundo.

Martin (Javier Drolas) está sozinho, passa por um momento de depressão e não se conforma com a maneira com a cidade de Buenos Aires cresceu e foi construída. Web designer, meio neurótico, pouco sai e fica grande parte do tempo no computador. É através da internet que conhece Mariana (Pilar López de Ayala), sua vizinha também solitária e desiludida com a vida moderna numa grande cidade.

De cara já entendo porque muita gente é fã de filmes fora do eixo Rio-São Paulo EUA. Os takes, a fotografia, a narração, tudo é novo pra mim. É um mundo novo e divertido sendo descoberto. O filme tem um clima diferente, pouco visto em filmes que bombam nos cinemas. Desde os cartazes até o figurino dos personagens, tudo é realmente muito novo e muito bem pensado. É aquele tipo de produto que parece feito em casa mas é tão bom ou melhor que os industrializados, sabe?

Assim como em Clube da luta, o personagem principal sofre de diversos vícios. Apresentados ao telespectador de uma forma muito simples, mas muito engraçada. Principalmente se você já passou por algum transtorno parecido ou se, simplesmente, conhece os jogos citados por Marvin, o protagonista.

Quem nunca?

Quem nunca?

Marvin é um cara que vive online. No mais literal sentido da palavra. Muda seu status quando vai dormir, lê no computador e mesmo quando vê a notícia na sua frente, prefere se refugiar em sua casa e no conforto de seu lar procurar mais informações sobre os ocorridos. Me faz crer que ele seria tantos amigos nossos que vemos por aí, que lutam por uma foto, que encenam para ganhar likes, que criam cenários exorbitantes com livros e action figures em segundo plano para impressionar fãs, mas que no fundo não sabem nem o que estão fazendo ali, no primeiro plano.

Se mesmo sabendo quem eu procuro, não consigo achar, como vou achar quem eu procuro se nem sei como é?

Mariana, diferente, mas ainda assim muito solitária. Arquiteta sem sucesso, vive rodeada por manequins que preenchem o poucos tempo livre de seus dias. Seja banhando-os ou carregando-os para lá e para cá, é comum encontrá-la com seus manequins. Na verdade, mais parece que ela faz companhia a eles do que o contrário, uma vez que os manequins parecem viver uma vida de viagens, badalações e agitação, muito mais interessante que a vida pacata e sem graça de Mariana.

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Mariana é resultado direto de uma dezenda de relações como muitas das que vivemos hoje em dia: distante. Um dia se pegou perguntando quem era aquele homem com ela e o abandonou. Sentiu medo de morar com um estranho.

De Medianeras podemos levar a mensagem muito clara de que nós somos resultados de nossos medos, de nossos anseios e, principalmente, de nossos relacionamentos falidos do passado, que cria, pouco a pouco, traumas irrecuperáveis, te transformando em uma pessoa disforme, retalho daquilo que você já foi um dia. Uma junção de pedaços de um quebra cabeça que, quando montado, não nos mostra imagem nenhuma, apenas aquilo que acreditávamos que era: um quebra cabeça.

Medianeras não só mudou meu pensamento em relação a filmes não-americanos, como também me fez ver nos personagens um pouco da minha vida, dos meus relacionamentos. Tão conturbados e tão cheios de cacos deixados para trás, onde hoje quando ando, fico tão receoso de pisar em um deles que acabo não andando. Com Medianeras aprendi que mais vale sarar um corte profundo no pé do que evitar cortá-lo.

É um filme que vale a pena assistir, seja por seus personagens cativantes, à sua maneira, ou pelo final incrivelmente simples e surpreendente. Se você não se pegar sorrindo nos últimos segundos do filme, pode encher minha caixa de comentários de reclamações.

Se puder, veja. Vai valer cada segundo.

3 Comments

  • Reply Crítica marota do filme entre abelhas maio 8, 2015 at 10:03 am

    […] a crítica sobre Medianeras deixa bem claro que fiquei apaixonado pelo filme. Não deixem de ler aqui. Se estiver arrependido de ter visto Entre Abelhas, ainda dá tempo de correr no Netflix e ver uma […]

  • Reply Ruan agosto 2, 2015 at 3:00 am

    Obrigado pela dica – assisti hoje (depois de ver Entre Abelhas), muito bom mesmo!!

    • Reply vanguedes agosto 2, 2015 at 4:52 pm

      Que bom que curtiu, Ruan. Realmente o Medianeras é muito melhor e muito mais tocante que Entre Abelhas.

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